Augusto Cury: voo de galinha ou reflexo do comportamento do eleitor brasileiro?

Por Tainá Ribeiro Alves em Rio Verde, GO 01/09/2026 16:00
Augusto Cury: voo de galinha ou reflexo do comportamento do eleitor brasileiro?

Foto: via O GLOBO

O crescimento da presença de Augusto Cury nas plataformas digitais tem gerado inquietação entre os concorrentes, que buscam entender se o escritor pode realmente romper a polarização política ou se sua popularidade representa apenas um sintoma do atual comportamento do eleitorado.

As últimas pesquisas para as eleições de 2026 revelam um cenário marcado por altas taxas de rejeição, baixa fidelidade partidária e amplo espaço para alternativas aos polos tradicionais. A polarização ainda estrutura a disputa presidencial, porém já não explica todas as escolhas dos eleitores.

Desde 2018, o Brasil convive com o que analistas denominam de “eleitorado de veto”, constituído por cidadãos que votam mais para impedir a vitória de determinados candidatos do que por identificação com opções específicas, gerando uma política volátil e possibilitando o rápido crescimento de candidaturas improváveis quando encontram um eleitor cansado das alternativas disponíveis.

Um exemplo recente foi o de Pablo Marçal na eleição municipal de São Paulo em 2024. Inicialmente considerado um candidato periférico, Marçal conseguiu transformar sua campanha em uma das forças centrais da disputa, demonstrando a capacidade de um outsider de mobilizar atenção, construir identidade própria e deslocar rapidamente o eixo de uma eleição. Contudo, o caso também expôs limites: maior exposição trouxe maior escrutínio e a necessidade de transformar audiência em estrutura eleitoral sólida.

Para analisar o fenômeno, especialistas distinguem diferentes perfis de outsiders. O outsider empresarial chega à política prometendo gerir o Estado como uma empresa, apresentando eficiência e gestão como antídotos à política tradicional. O outsider guerreiro constrói sua imagem pelo confronto, prometendo romper com o sistema, enfrentar instituições e dizer o que políticos de carreira evitariam. O outsider antissistema tem como principal credencial a rejeição às elites políticas e às regras estabelecidas. Por fim, o outsider redentor não se propõe apenas a governar ou destruir, mas a curar; seu discurso parte de um diagnóstico de uma sociedade doente e oferece a si mesmo como solução, sem necessidade inicial de um programa detalhado, apenas de uma interpretação do mal‑estar coletivo.

Dentro dessa tipologia, Augusto Cury se aproxima do outsider redentor. Seu discurso encontra uma sociedade cansada, ansiosa e exausta da guerra política, oferecendo acolhimento e a promessa de recuperação ao invés de convocar o eleitor para mais uma batalha.

Todo outsider enfrenta três testes decisivos. O primeiro é o ataque: inicialmente pode parecer irrelevante, mas ao ganhar visibilidade, passa a ser alvo de investigação sobre biografia, posições e contradições. O segundo teste é a estrutura; embora as redes sociais garantam visibilidade, uma candidatura presidencial exige partido, alianças, palanques, recursos e capilaridade. O terceiro e mais difícil é a escolha: o outsider cresce por ser múltiplo para diferentes eleitores, mas, em algum momento, precisará responder perguntas que a ambiguidade tem adiado – de que lado está, o que defende e o que fará ao assumir o governo.

Se o primeiro teste for superado, o crescimento pode se transformar em identidade política duradoura, sobrevivendo aos ataques e convertendo curiosidade em voto. Contudo, seria precipitado considerar Cury, neste momento, como uma candidatura competitiva, assim como seria equivocado tratá‑lo apenas como uma excentricidade.

Com informacoes de O GLOBO.

Tainá Ribeiro Alves

Sobre o Autor: Tainá Ribeiro Alves

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