Superfície dos polos lunares preserva micróbios terrestres por dias, revela estudo da NASA

Por Cosmo Ricardo Nunes em Rio Verde, GO 25/08/2026 10:18
Superfície dos polos lunares preserva micróbios terrestres por dias, revela estudo da NASA

Foto: Space Today

Um novo estudo da NASA indica que parte considerável da superfície do polo sul lunar não elimina microrganismos terrestres tão rapidamente quanto se acreditava, permitindo que células viáveis permaneçam por dias antes da chegada da tripulação da Artemis III.

Os pesquisadores cruzaram mapas topográficos com resolução de cinco metros por pixel com limites experimentais de resistência de cinco microrganismos comumente encontrados em espaçonaves habitadas, concluindo que até 30% da área polar sul conserva células vivas por períodos de dias.

O local estudado corresponde a regiões onde o Sol nunca se eleva acima do horizonte local, a temperatura despenca para menos de setenta graus acima do zero absoluto e o gelo de água permanece estável há bilhões de anos.

Durante décadas, esse cenário foi descrito como o oposto de um berço para a vida – vácuo, radiação intensa, frio extremo e ausência de atmosfera – mas a equipe da NASA virou essa descrição ao contrário.

Os resultados foram publicados em 19 de agosto de 2026 na revista Science Advances, sob a liderança de Prabal Saxena, do Centro de Voo Espacial Goddard, em Greenbelt, Maryland.

Assinam o artigo Prabal Saxena; Stefano Bertone, afiliado ao Goddard, à Universidade de Maryland e ao Observatório Astrofísico de Turim do Instituto Nacional de Astrofísica da Itália; Heather V. Graham; Natalie M. Curran; Andrew Needham; D. E. Pugel; Noah E. Petro, todos do Goddard; e Aaron B. Regberg, do Centro Espacial Johnson, em Houston.

A diversidade da equipe – especialistas em geodésia planetária, astrobiologia, geoquímica orgânica e microbiologia de ambientes controlados – evidencia a complexidade do problema investigado.

O manuscrito levou quase um ano entre a submissão, em setembro de 2025, e a aceitação, em julho de 2026.

O ponto de partida da pesquisa está na mudança de escala que a exploração lunar está prestes a vivenciar. Enquanto as missões Apollo pousaram em regiões equatoriais por poucos dias sem pretender construções permanentes, a campanha Artemis visa estabelecer presença recorrente, extrair recursos locais, montar bases e usar a Lua como campo de treinamento para Marte. Como já relatamos em 06/08, a NASA deu um passo importante para a Artemis III, que será a primeira missão a levar astronautas ao polo sul lunar.

Cada atividade humana traz um fator que nenhuma sonda robótica transporta na mesma quantidade: microrganismos. A pele humana abriga milhões de bactérias, e o corpo contém ainda mais. Trajes espaciais, câmaras de descompressão e módulos pressurizados podem vazar, e a ventilação de eclusas de ar libera compostos orgânicos que podem conter células viáveis, apesar de filtros mitigarem parte do risco.

Os autores ressaltam que, atualmente, não existem requisitos de bioburden – limite máximo de microrganismos permitido a bordo – para veículos que pousam na superfície lunar, já que a Lua tem sido classificada como destino de baixo risco biológico.

O estudo sugere que essa classificação deve ser revisada, pois a geometria lunar cria condições especiais. O eixo de rotação da Lua tem inclinação de 1,5424° em relação ao Sol, fazendo com que, nas áreas polares, o Sol nunca se eleve muito acima do horizonte, produzindo sombras extensas.

Combinado ao relevo acidentado de crateras de impacto acumuladas ao longo de bilhões de anos, surge um mosaico térmico e luminoso altamente irregular, onde regiões separadas por poucas dezenas de metros recebem quantidades drasticamente diferentes de luz solar.

Esse mosaico gera as regiões permanentemente sombreadas (PSR – permanently shadowed regions), que nunca recebem luz solar direta. As PSR são o foco de interesse científico e econômico porque preservam gelo de água e outros voláteis, recursos essenciais para combustível, água potável e oxigênio, além de constituírem um registro geológico do sistema solar primitivo.

As mesmas condições que estabilizam o gelo – baixa incidência de radiação ultravioleta, temperaturas extremamente baixas e fluxo reduzido de partículas energéticas – também favorecem a preservação de células microbianas, permitindo que microrganismos sobrevivam por períodos mais longos do que se pensava.

Em suma, a descoberta indica que a presença humana no polo sul lunar exigirá protocolos de descontaminação mais rigorosos, reforçando a necessidade de políticas de proteção planetary que considerem a vulnerabilidade biológica da região.

Com informacoes de Space Today.

Cosmo Ricardo Nunes

Sobre o Autor: Cosmo Ricardo Nunes

Cosmo é o olho do MOTNAF.NEWS voltado pro infinito. De lançamentos da NASA e SpaceX a buracos negros, eclipses, missões a Marte e as descobertas que mudam nossa visão do universo, ele traduz o que rola lá em cima numa linguagem que qualquer terráqueo entende. Se aconteceu no espaço, o Cosmo já está de telescópio apontado.