Laura Beatriz: O que mais quero na vida é que o câncer não volte
Costumava dizer para mim mesma que só pararia de fumar quando completasse 30 anos. Mas tive câncer de pulmão aos 26. Nunca acreditamos que essas coisas vão acontecer com a gente, até que aconteçam.
A primeira vez que coloquei um cigarro na boca foi aos 14, em um trabalho de escola na casa de uma amiga. No início, fumar era algo esporádico. Aos 18, virou dependência. Foi nessa época que conheci o vape, durante um intercâmbio na Nova Zelândia.
De volta ao Brasil, passei alguns anos fumando cigarro convencional, até que, em 2020, migrei de vez para os eletrônicos. O que parecia uma alternativa só aumentou meu consumo: se antes fumava algumas vezes por semana, passei a fumar todo dia.
Foi nessa data que fui para o hospital achando que estava com pneumonia. Eu tinha bebido e fumado muito em uma festa no fim de semana, como tantas outras vezes. A segunda-feira começou com tosse e cansaço, mas esperei para procurar ajuda até quinta, quando passei a sentir pontadas nas costas.
No pronto-socorro, uma tomografia detectou um nódulo no meu pulmão direito. Fui internada no mesmo dia. Recebi o diagnóstico de um tumor, um tumor maligno. Foi um choque de realidade.
Estamos acostumados a ver pessoas tendo essa doença lá pelos 60. Só entendi a gravidade da situação depois da cirurgia que removeu metade do meu pulmão direito. Hoje, toda vez que sinto vontade de fumar, me lembro do dreno que comprimiu meu pulmão por três dias após o procedimento.
A dor era infernal. Os vídeos que gravei durante a recuperação no hospital viralizaram nas redes sociais, e continuo produzindo conteúdo sobre esse assunto justamente para alertar as pessoas de que os vapes não têm nada de inocentes.
Acho que muita gente começa a fumar na adolescência, movida pela curiosidade, mas essa curiosidade pode custar caro. Tem gente que associa cigarro a socialização, mas digo que, se você só será aceito por um grupo porque fuma, essas pessoas não são amigas de verdade.
Existem atitudes muito mais saudáveis para cultivarmos nessa fase da vida. Hoje, pratico atividade física sete vezes por semana e passei a cuidar melhor da alimentação. Pela primeira vez, estou pensando no futuro.
Antes, era só o aqui e o agora. Entendi que os hábitos que tenho hoje vão moldar meu amanhã. Não vou dizer que foi fácil largar o pod. Passei três meses dentro de casa, após a cirurgia, me recuperando e evitando contato com pessoas que fumavam e bebiam.
Na primeira vez que saí, acabei bebendo. Fui embora do aniversário chorando, porque a vontade de fumar voltou com força. Pensei: “Ainda não posso voltar a beber, porque a bebida é um gatilho”.
E tudo o que eu não quero é sentir, mais uma vez, aquela fissura incontrolável. Muitos amigos evitavam fumar perto de mim nos primeiros meses, mas agora, dois anos depois, entendi que preciso conviver com a fumaça alheia.
Ao mesmo tempo, vi pessoas próximas abandonarem o cigarro: minha noiva, meus pais, três amigos. Se a fissura pelo cigarro reaparecer, volto para casa, porque nem considero a possibilidade de uma recaída.
Já coloquei na cabeça que nunca mais vou dar um trago, porque a coisa que mais quero na vida é que o câncer não volte.
Com informacoes de VEJA.

