Hitomi Soga relata 24 anos de cativeiro na Coreia do Norte e casamento forçado com soldado americano
Em uma tarde quente de agosto de 1977, na ilha de Sado, no Japão, a jovem Hitomi Soga, então com 19 anos, acompanhava a mãe ao supermercado quando foram abordadas por três homens que as capturaram, cobrindo suas bocas e colocando sacos sobre as cabeças.
Os recolhimentos subsequentes foram confusos: Soga foi transferida da costa para uma embarcação que, segundo seu relato, mudou de uma lancha para um navio maior, sem que pudesse conversar com a mãe, a quem descreve como generosa, inteligente e amorosa.
Ao ter a venda dos olhos removida, a vítima percebeu que não estava mais no Japão, mas sim na Coreia do Norte, onde permaneceria confinada por 24 anos. O país norte-coreano teria conduzido um programa de sequestros patrocinado pelo Estado entre 1977 e 1983, envolvendo ao menos 17 cidadãos japoneses, embora o número real possa ser maior.
Especialistas sugerem que os raptores pretendiam transformar as vítimas em "livros didáticos vivos", permitindo que espiões norte-coreanos aprendessem língua e costumes japoneses para futuras infiltrações. Soga ainda desconhece se foi alvo específico ou aleatório.
Durante os dois primeiros anos de sua detenção, a jovem ficou em um quartel militar, sem saber o destino da mãe e sem conseguir obter explicações dos guardas. Ela recorda noites observando a lua e as estrelas, chorando pela família que deixara no Japão.
Em 1980, recebeu ordem de deixar o quartel e foi informada de que deveria casar-se com Charles Jenkins, um soldado americano que desertou para a Coreia do Norte em 1965 após cruzar a Zona Desmilitarizada, acreditando que tal ato o levaria a lutar no Vietnã e, posteriormente, a retornar aos Estados Unidos.
O casamento, ocorrido em um dia chuvoso, foi imposto como parte da propaganda de Pyongyang, que buscava associar publicamente o Japão e os Estados Unidos – seus maiores adversários. Apesar da falta de escolha, Soga desenvolveu profundo afeto por Jenkins; o casal teve duas filhas, e o marido dedicava-se a confeccionar brinquedos e móveis para elas.
Sem empregos formais remunerados, a família vivia sob rígido controle do regime, com opções de lazer praticamente inexistentes – não havia shows, cinemas ou outras formas de entretenimento. Soga cultivava vegetais para subsistir, encontrando conforto na família apesar do medo constante.
A situação mudou em 2002, quando, durante uma cúpula de normalização das relações entre Japão e Coreia do Norte, Kim Jong‑il reconheceu publicamente o sequestro de 13 dos 17 cidadãos apontados pelo Japão. As autoridades norte‑coreanas afirmaram que apenas cinco das vítimas ainda estavam vivas, sem confirmar o destino da mãe de Soga, Miyoshi.
Com a permissão concedida, Soga retornou ao Japão para uma visita breve, reencontrando irmã e pai, que a esperavam há mais de duas décadas sem saber se ela ainda vivia. O reencontro foi marcado por intensas lágrimas e abraços.
Optando por permanecer no Japão, Soga só voltou a ver o marido e as filhas dois anos depois. Jenkins temia ser preso pelo exército americano ao viajar ao Japão; após negociações, ele cumpriu 25 dias de uma pena de 30 dias, declarando-se culpado de deserção e auxílio ao inimigo.
Com informacoes de G1.

