Goldman Sachs alerta risco de alta acentuada nas commodities agrícolas por três ameaças globais

Por Ronaldo Batista Souza em Rio Verde, GO 08/09/2026 14:14
Goldman Sachs alerta risco de alta acentuada nas commodities agrícolas por três ameaças globais

Foto: via Money Times

O Goldman Sachs elevou sua avaliação de risco de fortes altas nos preços das commodities agrícolas, apontando três ameaças globais que podem pressionar o setor: interrupções no Estreito de Hormuz, novas tensões entre Rússia e Ucrânia no Mar Negro e a possibilidade de formação de um super El Niño.

Segundo o banco, os mercados agrícolas entraram em 2026 com estoques relativamente confortáveis, porém os riscos de valorização ganharam relevância à medida que choques geopolíticos e climáticos se intensificam em um ambiente comercial cada vez mais protecionista. O índice Bloomberg BCOM Agriculture Spot já acumula alta de 24% em relação ao ano anterior, impulsionado sobretudo pelo trigo, cujos preços avançaram 41%. Os analistas Lina Thomas e Daan Struyven afirmam que "mesmo pequenas interrupções na oferta podem gerar movimentos de preços maiores do que no passado, à medida que as barreiras comerciais sobem mais rapidamente em resposta aos riscos de abastecimento".

A primeira ameaça destacada está no Estreito de Hormuz, rota que concentra cerca de um terço do comércio mundial de fertilizantes e aproximadamente 10% das exportações globais de diesel. As interrupções registradas desde a escalada do conflito no Oriente Médio, em julho, podem elevar os custos de produção agrícola, pois fertilizantes e diesel são essenciais para a produtividade das lavouras e para a operação de máquinas, colheitadeiras e veículos de transporte. O risco imediato recai sobre fertilizantes nitrogenados, utilizados em milho, trigo e arroz, coincidindo com a janela de compras de importantes mercados, como o milho brasileiro, o arroz e a cana‑de‑açúcar da Índia e o trigo de inverno da União Europeia. Em relação aos fertilizantes fosfatados, o Goldman Sachs chama atenção para a soja brasileira: o Brasil responde por 62% das exportações globais da oleaginosa e importa cerca de 80% do fosfato utilizado no campo. Embora os produtores possam recorrer às reservas de fósforo presentes no solo a curto prazo, a aplicação abaixo do nível recomendado por um período prolongado pode reduzir a qualidade do solo, a resiliência das lavouras e a produtividade. A escalada no Oriente Médio coincidiu com a principal janela de compra de fertilizantes para a soja brasileira, entre junho e julho, mantendo os preços dos fosfatados elevados antes do plantio iniciado em setembro. Além disso, preocupações com a segurança energética podem levar grandes exportadores a destinar maior parte de suas safras à produção doméstica de biocombustíveis; Brasil e Índia elevaram recentemente seus mandatos de etanol, enquanto a Indonésia ampliou a mistura obrigatória de biodiesel, reduzindo o excedente disponível para exportação.

A segunda ameaça está no Mar Negro, considerado o corredor de grãos mais importante do mundo. A retomada das tensões entre Rússia e Ucrânia coloca em risco entre 15% e 20% do comércio global de grãos. As interrupções ocorrem durante o pico da temporada de exportação de trigo da região. Os embarques marítimos russos e ucranianos já estão muito abaixo dos níveis normais, contribuindo para uma alta de aproximadamente 20% nos preços do cereal desde o início da escalada, em julho. As exportações de milho dos dois países também recuaram. Embora agosto seja um período sazonalmente mais fraco para os embarques, o Goldman Sachs alerta que os efeitos podem se espalhar do trigo para o mercado global de milho caso as interrupções continuem a partir de outubro, quando as exportações do cereal normalmente ganham força.

A terceira ameaça refere‑se à formação de um super El Niño. De acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), há probabilidade superior a 90% de que o fenômeno evolua para uma intensidade muito forte durante o inverno de 2026/2027 no Hemisfério Norte. Super El Niños são raros, tendo ocorrido apenas três vezes nos últimos 75 anos, e o atual pode se tornar o mais intenso já registrado. O evento climático poderia atingir simultaneamente diferentes regiões produtoras por meio de secas e enchentes severas. O açúcar aparece entre os mercados mais expostos, já que as exportações globais estão concentradas em áreas sensíveis ao El Niño, como o Centro‑Sul do Brasil, a Índia e a Tailândia. Também existem riscos para a logística: o Canal do Panamá, responsável por 10% do comércio mundial de cereais e 17% do comércio de soja, pode enfrentar redução dos níveis de água. Caso os reservatórios não sejam suficientemente recompostos antes do período seco, entre janeiro e maio, as autoridades poderão impor restrições ao trânsito.

Não é a primeira vez que o agronegócio brasileiro aparece no radar de grandes bancos internacionais; como já apontamos na análise da alocação de R$8,4 bilhões pelo Itaú Unibanco no Eco Invest Brasil, fatores externos podem impactar diretamente a competitividade e os preços dos produtos agrícolas.

Com informacoes de Money Times.

Ronaldo Batista Souza

Sobre o Autor: Ronaldo Batista Souza

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