Criminosos armazenam dados para decifrar com computação quântica: o risco do 'colha agora, decifre depois'
A crescente capacidade da computação quântica está gerando um novo cenário de vulnerabilidade digital, onde criminosos podem interceptar informações protegidas e mantê‑las em reserva até que tecnologias avançadas permitam decifrá‑las. Essa tática, conhecida como "harvest now, decrypt later" ou, em português, "colha agora, decifre depois", não exige impacto imediato, mas representa um risco latente de longo prazo.
Na prática, um invasor captura dados criptografados, arquiva o material e aguarda o desenvolvimento de computadores quânticos capazes de romper os algoritmos de proteção vigentes. Enquanto isso, a informação permanece segura apenas na ilusão de que a criptografia atual é suficiente.
O perigo se intensifica quando os dados têm valor duradouro. Informações financeiras, pesquisas científicas, projetos industriais, propriedade intelectual e documentos governamentais podem permanecer estratégicos por anos, tornando‑se alvos atraentes para quem dispõe de recursos computacionais avançados. Dados pessoais sensíveis também entram nessa categoria, pois podem ser reutilizados em fraudes futuras.
O ponto de inflexão está nos computadores quânticos, que utilizam princípios da física quântica para executar cálculos de forma exponencialmente mais rápida que os computadores clássicos. Quando atingirem capacidade suficiente, esses dispositivos poderão quebrar os esquemas de criptografia que hoje protegem comunicações e transações digitais.
Especialistas alertam que a preparação deve iniciar antes que a ameaça se torne concreta. Nesse contexto, a criptografia pós‑quântica ganha destaque: são métodos desenvolvidos para resistir tanto a ataques de computadores tradicionais quanto a futuras máquinas quânticas. A transição precoce evita uma corrida contra o tempo para substituir mecanismos de segurança já comprometidos.
No Brasil, a iniciativa já está em andamento. Conforme previsto no edital do leilão do 5G, a Rede Privativa de Comunicação da Administração Pública Federal, sob responsabilidade da Entidade Administradora da Faixa (EAF), será construída com uma malha própria de fibra óptica. Desde a concepção, o projeto incorpora criptografia pós‑quântica, visando proteger o tráfego de informações sensíveis contra possíveis quebras futuras. "A Rede Privativa tem cuidados muito rigorosos desde a sua concepção. Ela foi desenhada com os melhores critérios de segurança, já que estamos falando de dados muito sensíveis. São soluções já pensadas para o avanço da tecnologia no futuro", afirma Otavio Scardelato Junior, gerente da EAF.
Anderson Santos, pesquisador e especialista em Criptografia Pós‑Quântica do Venturus, reforça a necessidade de alinhamento internacional. Em entrevista ao Olhar Digital, ele destacou que o Brasil figura entre os países mais atacados do mundo e lidera os incidentes na América Latina. "Precisamos acompanhar outros países e blocos que estão fazendo essa migração", enfatiza.
O risco do "colha agora, decifre depois" também está mudando a percepção sobre ataques cibernéticos. O especialista alerta que postergar a adoção de novas proteções pode expor áreas estratégicas, sobretudo setores críticos como financeiro, energia e saúde. "Setores diretamente relacionados às infraestruturas críticas, como financeiro, energia e saúde, precisam de uma atenção maior", afirma Santos, apontando que uma vulnerabilidade concretizada pode afetar milhões de pessoas.
Essa ameaça se soma a outras tendências de segurança que já cobrimos, como o avanço da inteligência artificial nos serviços financeiros, apontado pela PwC, que também destaca a necessidade de reforçar a proteção de dados em ambientes cada vez mais digitalizados.
Entre os vetores de ataque mais frequentes no país está o celular, alvo de golpes que se proliferam. Recentemente, o FBI divulgou a criação de uma "cidade falsa" usada para enganar cibercriminosos, enquanto a Oracle alertou clientes após um ataque que expôs dados de mais de 100 empresas, reforçando a urgência de medidas robustas de segurança em todos os setores.
Com informacoes de Olhar Digital.

