Corpos arrastados por enxurrada de densidade superior ao concreto dificultam identificação, relata engenheiro nepales ao GLOBO

Por Tainá Ribeiro Alves em Rio Verde, GO 29/08/2026 13:40
Corpos arrastados por enxurrada de densidade superior ao concreto dificultam identificação, relata engenheiro nepales ao GLOBO

Foto: via O GLOBO

O engenheiro civil Rajpande, que atua nos reparos de uma rodovia entre as vilas de Malekhu e Mugling, relatou ao GLOBO que a velocidade do rio, extremamente alta, provocou danos em toda a margem e que o trecho estava muito movimentado no momento da inundação, com muitas pessoas chorando ao presenciar a tragédia.

Desde a quarta-feira, Rajpande tem ajudado a abrir caminho entre os destroços deixados pela torrente de água, gelo pulverizado, areia e rochas, e na sexta‑feira conseguiu desbloquear uma parte da rodovia que permanecia inacessível há dois dias.

Um dos maiores desafios apontados por Rajpande é a identificação dos mortos, já que muitos corpos foram desmembrados após serem arrastados por um fluxo cuja "densidade é maior do que a do concreto", dificultando a contagem exata de vítimas e a localização de cadáveres ainda enterrados na lama.

Em resposta à catástrofe, o Nepal enviou mais 1.200 militares para as margens dos rios nos distritos de Rasuwa, o mais afetado, e Chitwan, onde foram encontrados ao menos 221 corpos arrastados pela corrente. Os necrotérios dos hospitais têm capacidade para armazenar apenas cerca de 30 corpos, informou o chefe da polícia distrital, Rameshwor Poudel, ao New York Times.

Devido à falta de espaço, as autoridades transformaram um salão de um prédio governamental em um necrotério improvisado com capacidade para cerca de 150 cadáveres. Poudel destacou que dezenas de corpos chegaram às margens dos rios em pedaços, o que torna o reconhecimento ainda mais difícil; as equipes policiais limpam os restos mortais, fotografam‑nos e exibem as imagens do lado de fora do necrotério para que familiares desaparecidos possam tentar identificá‑los. Até o momento, apenas dois corpos foram identificados e entregues às famílias em Chitwan.

A Cruz Vermelha informou que ao menos 93 mil pessoas estão "com grandes necessidades" após as enchentes que atingiram a fronteira entre Nepal e Tibete.

As Forças Armadas do Nepal também resgataram sobreviventes presos em um túnel de uma hidrelétrica, demonstrando a amplitude dos esforços de socorro.

Amrita Poudyal, diretora de Programas do Sul da Ásia na ONG ECPAT Luxembourg, que combate o tráfico infantil no país, relatou dificuldade de comunicação com membros da equipe que atuam na área afetada. Uma funcionária da ONG tem 40 familiares desaparecidos, enquanto outra procura por 17.

"Tudo foi levado. Há corpos por toda parte. Não há água. Não há civilização alguma", disse Poudyal ao GLOBO, acrescentando que não há energia elétrica e que a torre de telefonia celular também foi destruída pela enchente.

Poudyal alertou ainda sobre o risco de criminosos se aproveitarem da situação para explorar crianças e mulheres, ressaltando que traficantes ou intermediários externos podem tentar abusar das vulnerabilidades criadas pela catástrofe.

Em relatos adicionais, a enchente foi descrita como "cimento líquido" e avançou com o dobro da força da água; três corpos foram encontrados na Índia como consequência do mesmo evento.

Com informacoes de O GLOBO.

Tainá Ribeiro Alves

Sobre o Autor: Tainá Ribeiro Alves

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