Calor extremo agrava disputa por água entre castas em Bundelkhand, Índia

Por Tainá Ribeiro Alves em Rio Verde, GO 25/08/2026 07:20
Calor extremo agrava disputa por água entre castas em Bundelkhand, Índia

Foto: via O GLOBO

Na região de Bundelkhand, no norte da Índia, mulheres da comunidade Dalit relatam que precisam aguardar a saída de membros de castas superiores antes de acessar as bombas manuais de água, situação agravada pelas altas temperaturas que ultrapassam os 40 °C e chegam próximo de 48 °C em alguns trechos.

Mamta, de 40 anos, residente em uma aldeia do distrito de Jalaun, chegou a realizar até dez deslocamentos diários para buscar água. Após o nascer do sol, ela sai de casa carregando três baldes plásticos vazios e percorre algumas centenas de metros até a bomba manual mais próxima. Segundo seu relato à BBC, as torneiras instaladas por um programa governamental de abastecimento de água potável permanecem secas há dois anos, o que faz com que quase mil habitantes da aldeia dependam exclusivamente de poucas bombas manuais.

Para suprir sua família de onze pessoas e os animais, Mamta dedica horas ao transporte de água. Contudo, a escassez não é o único obstáculo. Ela pertence à comunidade Valmiki, classificada como Dalit – tradicionalmente considerada “intocável” dentro da hierarquia de castas indiana – e afirma que, quando indivíduos de castas dominantes utilizam as bombas, os Dalits são obrigados a esperar.

“Se eles estão lá, não podemos pegar água. Temos que aguardar até que se retirem”, declarou Mamta. Ela acrescentou que alguns moradores de castas superiores despejam água sobre a bomba após o uso, alegando “purificá‑la”, prática que, segundo ela, ocorre há décadas.

A disputa ocorre em Bundelkhand, região semiárida que abrange distritos dos estados de Uttar Pradesh e Madhya Pradesh e é conhecida por frequentes secas. Entre 2002 e 2016, a área sofreu várias secas graves. O planalto rochoso da região possui baixa capacidade de retenção de água subterrânea, enquanto chuvas irregulares e o aumento das temperaturas tornam o acesso ao recurso ainda mais imprevisível, apesar de iniciativas de conservação promovidas pelo governo e comunidades locais.

Um estudo que analisou mais de um século de registros meteorológicos identificou elevação das temperaturas em praticamente toda a região, com alguns pontos atingindo quase 48 °C nos últimos verões. Mitashi Singh, do Centre for Science and Environment, explicou que o conflito por água não é novidade, mas que verões mais intensos estão ampliando a escassez e acirrando tensões preexistentes.

Autoridades locais contestam as alegações de escassez e de discriminação nas fontes públicas de água, enquanto moradores das castas dominantes também negam a existência de discriminação, embora reconheçam a crescente pressão sobre os recursos hídricos.

Ram Gopal Singh, com cerca de cinquenta anos, apontou para poços abandonados na aldeia que permanecem secos há quase duas décadas. Ele informou que outras fontes de água secaram ou ficaram contaminadas, e que conexões de água pouco confiáveis forçaram mais famílias a depender das bombas manuais.

Segundo Singh, os residentes tentam buscar água nas horas mais frescas da manhã, o que gera discussões sobre a ordem de atendimento e a quantidade que cada família pode retirar. “Não há disputa relacionada a castas nessas bombas manuais”, afirmou.

Entretanto, os Dalits entrevistados apresentam relato diferente, indicando que não há fila formal nas bombas e que as famílias buscam se aproximar assim que possível, enfrentando, segundo eles, restrições impostas pelos membros de castas superiores.

Com informacoes de O GLOBO.

Tainá Ribeiro Alves

Sobre o Autor: Tainá Ribeiro Alves

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