Afeganistão Sofre com Apartheid de Gênero
O Afeganistão, que já foi central para a política externa dos EUA, agora parece ter desaparecido do radar de grande parte do mundo, apesar da convergência de crises provocadas pelo homem e por fenômenos naturais. A ajuda humanitária ao país, necessária para aproximadamente 45% da população, foi drasticamente reduzida por doadores internacionais desde que o Talibã voltou ao poder.
As mulheres e meninas estão arcando com o maior impacto desses cortes. O Talibã mantém uma ofensiva contra os direitos de mulheres e meninas, enfraquecendo proteções legais e retirando sistematicamente sua autonomia sob um sistema que especialistas descreveram como “apartheid de gênero”. Seus esforços conseguiram apagar metade da população da vida pública e tornaram o Afeganistão um dos lugares mais perigosos do mundo para ser mulher.
John Sopko, ex-inspetor-geral especial para a Reconstrução do Afeganistão, descreveu a situação como “um inferno se você é mulher no Afeganistão”. Ele criticou a comunidade internacional e o governo dos EUA por não fazerem o suficiente para ajudar as mulheres afegãs. A suspensão de contratos humanitários e de desenvolvimento da USAID no Afeganistão pelo presidente dos EUA no início de 2025 interrompeu mais de US$ 1,7 bilhão em assistência planejada.
O Afeganistão é agora o único país do mundo onde meninas são proibidas de estudar após a sexta série. A proibição está em vigor há tempo suficiente para que uma geração inteira de meninas tenha atravessado a adolescência sem entrar em uma sala de aula do ensino médio. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) estima que 2,4 milhões de meninas estão atualmente excluídas da escola.
As mulheres também foram proibidas de exercer a maioria das profissões, obrigadas a cobrir o rosto em público e impedidas de viajar longas distâncias sem a companhia de um homem. A ONU Mulheres informa que metade das mulheres afegãs agora sai de casa apenas uma ou duas vezes por mês, um isolamento que está provocando uma emergência de saúde mental. Sete em cada dez mulheres agora descrevem sua saúde mental como “ruim” ou “muito ruim”.
Mahbouba Seraj, uma das poucas ativistas afegãs que permaneceram em Cabul após o retorno do Talibã ao poder, disse que está considerando deixar o país devido à rápida deterioração da situação das mulheres. Ela criticou a falta de ação da comunidade internacional e do governo afegão para proteger os direitos das mulheres.
A violência contra as mulheres foi efetivamente autorizada por lei. Em março, o Talibã emitiu um decreto que permite aos homens baterem em suas esposas, desde que não quebrem ossos nem deixem ferimentos visíveis e permanentes. Outro decreto torna significativamente mais difícil para as mulheres se divorciarem, ao mesmo tempo em que elimina a idade mínima legal para o casamento, que era de 16 anos.
Especialistas em direitos humanos da Anistia Internacional e do Comitê da ONU sobre os Direitos da Criança alertam que o decreto legitima o casamento infantil, que tem aumentado de forma constante desde que o Talibã retomou o poder. A repressão ocorre paralelamente aos severos cortes na ajuda, com o financiamento humanitário geral para o Afeganistão caindo quase 70% desde 2022.
A ONU Mulheres estima que mais de 10,7 milhões de mulheres e meninas afegãs dependem de ajuda humanitária. Mais da metade das organizações lideradas por mulheres consultadas recentemente pela ONU espera fechar ou suspender suas operações no próximo ano por causa dos cortes. Uma organização que atua no norte do Afeganistão e pediu para não ser identificada disse que agora opera em “escala limitada”, com sua capacidade de continuar funcionando “seriamente ameaçada”.
Com informacoes de CNN Brasil.

